ELIS NA CAPRICHO !?!
- Isso não é justo! A gente trabalha com um amor danado em tudo o que faz. Quase se mata num ritmo intenso de atividades, procurando dar cada vez mais um pouco de nós por um ideal que é o mesmo de todos que amam a música brasileira. A gente se gasta, perde a mocidade, arrisca a saúde...Tudo isso por alguma coisa que não é só nossa. Depois, recebe em troca a maldade e a incompreensão daqueles que parecem sentir-se mal com o sucesso dos outros
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Essa era a Elis no ano 1968. A bronca era para a imprensa que persistia em criticar sua união, sobretudo profissional, com o produtor Ronaldo Bôscoli. Em entrevista à revista Capricho (acreditem), Elis contou o momento que estava vivendo horas antes de subir ao palco para defender "Lapinha" na Bienal do Samba.
Capricho- Elis, todo esse aborrecimento não seria decorrente também do cansaço que domina você pelo excesso de trabalho?
Elis – É claro que isso também contribui. Ultimamente, saio da cama para a televisão ou para um estúdio de rádio e só fico livre na hora de voltar pra cama. Há vários meses não sei o que é um cinema ou um teatro. Minhas refeições se resumem em sanduíches comidos ás pressas num intervalo ou outro de trabalho. Olhe, não tenho nem tempo para brincar com meus cachorrinhos "boxers" que acabaram de nascer. Eles estão lá no Rio e são tão bonitinhos!
Capricho – Você hoje não se agita no palco como antigamente. Muita gente diz que você não samba com aquele tradicional entusiasmo
Elis – O entusiasmo é o mesmo. Minha música é a mesma, mas agora eu sou uma senhora. Não se pode ficar fazendo indefinidamente as mesmas coisas. Depois, eu acho que não fica bem para uma mulher casada e da minha idade continuar se espalhando pelo palco como eu fazia aos dezenove anos
Capricho – O sucesso no Olympia e, de um modo geral, sua viagem à Europa mudaram muita coisa em você?
Elis – Ninguém passa impunemente pela Europa, Aprende-se muito das coisas que nunca param de acontecer por lá. No setor artístico é tudo feito em termo de um avanço jamais visto por aqui. Hoje – é verdade – nós já podemos participar disso. Já temos meios de ir pra lá buscar dólares e deixar um pouco de nossa música. Por isso, agora que já rompi parte de bloqueio vejo minha responsabilidade aumentar. Afinal tenho que voltar lá e dar um novo recado. Portanto, tudo tem que ser renovado com muito cuidado para que não se percam as origens da minha música.
Capricho- Essa correria toda...Elis, por quê? Para ir onde?
Elis – É, as vezes eu também me pergunto isso. No fundo, eu sei bem porque. Não se entra numa carreira sem alguma razão muito forte. E isso eu tenho. Não posso, agora, deitar, da oportunidades pelas quais lutei no início. Hoje que as coisas começam a acontecer em verdadeira avalancha, não posso fugir. Nem quero. E mais, para ganhar o que eu ganho, preciso cantar muito
Entrevista concedida a Jorge Aguiar
Escrito por Danilo às 19h49
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