NUMA TRANSVERSAL DO TEMPO...
Às vésperas de estrear o show “Transversal do Tempo” em São Paulo, Elis deu uma entrevista para às páginas amarelas da Revista Veja. A “pimentinha” contou para a então repórter Regina Echeverria, como nasceu a idéia e o conceito do show . Politizada como nunca, Elis fala do momento político da época e revela ao que se refere os versos da canção “Aos nossos filhos”. As palavras de Elis são tão interessantes quanto o show...vale a pena ler.
Elis em cena no "Transversal do Tempo"
Veja: Como foi que sua experiência no engarrafamento se transformou em um espetáculo?
Elis: Eu tina um contrato assinado com o Teatro Leopoldina, em Poro Alegre. E, entre fazer um recital, um concerto simplesmente, preferi chamar algumas pessoas para dirigir, iluminar e coisas do tipo. Aí foram surgindo idéias. Aquele engarrafamento me deixou uma impressão muito forte, principalmente porque eu estava grávida e me senti indefesa naquela hora. Tinha helicópteros de um lado, cavalos de outro, gente correndo para todos os lados. E eu estava ali, sem ter escolhido isso. Estava fechada dentro de um táxi, com medo, sem poder falar com o chofer, porque você nunca sabe com quem anda, e o Ubaldo tomou conta de mim. A analogia veio depois, porque na hora você faz a fotografia , a ampliação vem depois. Quer dizer, assisti, ao vivo, a falta de respeito que está solta pelo ar. A falta de respeito existe para com o rio, a pessoa, a árvore, o passarinho. Esse desrespeito na verdade, criou uma situação de impasse. Você sabe que o sinal de trânsito só vai ser aberto quando o guarda resolver abrir.Enquanto isso, você está dentro de um táxi e tudo acontecendo. Você imagina saídas, mas o sinal não abriu, o que podemos fazer? Ficamos sentados dentro de um táxi, numa transversal do tempo, esperando. Não te perguntam nada, não te pedem opinião.
Veja: Isso tudo está jogado no espetáculo?
Elis: Está dentro do espetáculo. A angústia, a claustrofobia e também as várias fugas. A alienação que pode vir através de embalos em qualquer dia da semana. Na realidade, não é um espetáculo feito para dançar. Alerto que os bailantes se sentirão muito agredidos, portanto não me cobrem. Se quiseram assistir, já vou avisando antes. Também não estou dizendo que todo espetáculo deva ser assim e também não quer dizer que todos os outros farei desta forma. Mas peço desculpas, usando as palavras do Vitor Martins: “me perdoem, os dias são assim”. A partir do momento em que resolvi que minha arte deve ter ligação com a realidade em que vivo, mínima que seja, lamento imensamente a cara amarrada, a falta de espaço, a falta de amigos.Também não fui preparada para isso, é o que está me sendo dado para digerir. Gostaria que fosse diferente. Mas também, como a maioria das pessoas, estou esperando o guarda adicionar as mudanças de cor no sinal. Enquanto isso, eu canto um sinal de alerta.
Veja: Esse sinal de alerta pretende exatamente o quê?
Elis: Mostrar o momento político de impasse em que vivemos e o resultado dos movimentos políticos que nos trouxeram a esse impasse. O partido político com o qual você conta para ser de oposição arrega e 41 saem da sala, se escondem debaixo do tapete ou no banheiro, só pode ser. Isso é uma porcaria quando você está nas portas do 15 de novembro e tem que votar nesse partido de novo. Agora, vai votar no outro? Não, vota nesse e continua tudo na mesma. Esse é o impasse , a falta de escolha, a falta de espaço, de ar, de confiança, de relaxo.
Na próxima semana, veja como foi o show “Transversal do Tempo”
Agradecimento: Leandro Arraes pela colaboração
Escrito por Danilo às 22h00
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