ELIS EM MONTREAUX: "O SHOW TAVA NA MINHA MÃO!"
O show de Elis em Montreux sempre foi cercado de muita polêmica e de opiniões contrárias. Muitos acharam que o show foi um sucesso, outros que foi um fracasso. A crítica internacional rasgou de elogios a performance de Elis, enquanto a brasileira considerou o show técnico, com um repertório comercial.
Mas nada melhor que ouvir a versão da protagonista do show...Em agosto de 1979, Elis deu uma entrevista ao jornalista Walter Silva contando sobre a sua experiência no Festival de Montreux. Os trechos abaixos foram reproduzidos no jornal Valor Econômico em janeiro de 2002.
Fala Elis....

"De repente, você está naquele palco, naquele lugar. Isso supera o racional. Você fica em estado de choque. Fui empurrada para o palco. Tive uma crise de catatonia, catalepsia, sei lá que "ia", qualquer dessas aí. Fiquei parada e o André (Midani) me falou: "Vai." E eu não reagia. Não conseguia falar, a perna não mexia, estava gelada. Não sabia o que fazer e a minha mão dormiu. Você calcula a piração em que eu estava naquela hora? Estava tudo tão embolado na minha cabeça...
Na hora em que o André me empurrou e entrei no palco, ouvi os aplausos. Aí, eu acordei, bicho. Agora, sou eu ou nada. É a chamada loucura que só sinto na mesa do parto. Ou mato esse cara ou o cara me mata. É a hora da verdade. Não dá para mentir. A primeira música que cantei foi "Cobra Criada", do João Bosco. Funcionou como uma espécie de esquentamento. Em seguida, a gente fez o "Cai Dentro" do Baden (Powell), que eles ficaram assustadíssimos porque não só a música estava com um andamento louco como ela é muito louca. Eu fiquei olhando muito nas caras das pessoas. Eles têm um comportamento diferente quando assistem a artistas brasileiros. A cara muda. Não sei o que que é. O Franco Zeffirelli, de repente, tem razão: a gente é o ultimo país feliz no mundo. Não é pelo lado exótico, do "exciting", do "exotic". Não é isso não. Tem uma coisa bem diferente, sabe? Tenho quase certeza que é a pulsação que é diferente dos outros. Só encontra nos pretos a explicação para isso, sabe?
Num determinado momento (do show), saquei que estava na mão. Olhei para o Cesar e falei: "A Baixa do Sapateiro", que não sabia se ia cantar porque é muito lento. Depois, o pau começou a quebrar de novo e quando eu comecei a cantar "Ponta de Areia", que eles começaram a aplaudir antes (de eu cantar). Claro, a música é conhecida, com gravação do Earth, Wind and Fire, que toca toda hora. É até prefixo de rádio aqui e fora daqui. Os caras aplaudiram e eu falei: "Vou deitar e rolar. Não vou segurar nada." Soltei os bichos! Falei: "Vamos embora", tipo "Fino da Bossa". E não quero nem saber, vou fazer tudo o que eu tenho direito, estou a fim e quero é mais. Aí entrou "Fé Cega, Faca Amolada", que eles também conheciam porque o Milton gravou e toca muito lá fora. Em seguida, passou para "Maria Maria" e aconteceu o grande escândalo. Tive seis bis. Foi ótimo! Cantei três vezes "Maria Maria". Depois, cantei "Corrida de Jangada" e o público quase morreu. Não estava ensaiada. Alguém gritou "Upa Neguinho". "Está falando com ele!", pensei. Gritaram "Águas de Março", vamos embora! A televisão ia filmar 40 minutos e lá não tem patrocinador. Mas tinha 20 minutos para organizar o palco para o Hermeto tocar. Falei: "Danaram-se os 40 minutos da televisão." Cantei uma hora e qualquer coisa."
Na semana que vem leia o que Elis disse sobre a organização do festival e da crítica internacional
Agradecimentos: Leandro Arraes pela sempre disposição em colaborar.
Escrito por Danilo às 18h50
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|